BEM-VINDOS AO BLOG GALIZA NAÇOM LUSÓFONA
Neste blog eu fago unha defensa da reintegraçom de Galiza dentro do universo da Lusofonia, já que as línguas faladas na Galiza e em Portugal som duas maneiras de falar a mesma língua.
Este blog é a mais um blog onde também se pode falar de tudo sobre o mondo lusófono, cultura ,língua, história..........., todas as ligaçoms entre Galiza e as suas irmas de fala portuguesa.
OS MUÇULMANOS EM PORTUGAL
Portugal é um dos estados cristãos da Península Ibéria que se fundou e se expandió a costa do estado da o-Andalus. Portugal instaurou-se como um pequeno principado no limite noroccidental do Estado Islâmico. Conquistou este principado A o-Mansur Ibn Abi Amir, mas, depois o principado aproveitou a ocasião da queda do Estado Omeya para ocupar Braga no ano 1040 d.J., sendo um povo cerca da primeira capital Porto ou Portugal, a que desse o nome ao país.
O Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que corresponde a parte do actual território português que se fraccionou em numerosos Reinos chamados Taifas. O sul esteve baixo o comando dos Bani Harún no ano 1026 d.J., sendo sua capital Santamaría de Algarve (Faro na actualidade, nome que é deformación portuguesa do nome árabe Harún); o centro do país estava em mãos de Bani Ao Alftas no ano 1022 d.J., e sua capital era Badajoz (em Espanha actualmente).
Prosseguiram os portugueses com seus correrias sobre as terras islâmicas a costa de Bani Ao Aftas, ocupando a cidade de Coimbra no ano 1064 d.J., à que transladaram sua capital. Se fraccionó o estado de Bani Harún em Santamaría do Algarve, onde surgiu o estado de Bani Mezin com capital em Silves no ano 1068 d.J., incorporando-se o resto ao estado de Bani Abbad com capital em Sevilla (hoje em Espanha). Mais tarde os almorávides acabaram com Bani Ao Aftas e Bani Abbad, unificando o país e consolidando suas fronteiras por um tempo de cento cinquenta anos e após que os portugueses ocupassem a cidade de Lisboa no ano 1093 d.J.
Os almohades tomaram o lugar dos almorávides ao mesmo tempo em que os portugueses ocuparam a cidade de Évora no ano 1166 d.J. E quando se debilitou o estado almohade, os portugueses se adueñaron de outras cidades islâmicas, atacando Kasr Bani Denis (actualmente Alcazar do Sol) no ano 1217 d.J., depois Beja, Santamaría, Lagos, e todo o oeste da o-Andalus no ano 1249 d.J., e transladaram sua capital de Coimbra a Lisboa e suas fronteiras consolidaram-se como hoje se encontram na actualidade.
Durante a ocupação das terras islâmicas, os portugueses confiscaram todas as terras e casas dos muçulmanos para ser distribuídas mais tarde entre os nobres cristãos. Tendo que emigrar grande número de muçulmanos às terras islâmicas que ficavam, enquanto a maioria dos restantes, se estabeleceram em grande número como mudéjares no sul. Quando Espanha submeteu aos muçulmanos à cristianización, Portugal seguiu seus passos no ano 1502 d.J. com a cristianización dos mudéjares. Deles tiveram que emigrar em grande número ao norte de Marrocos, obtendo de Espanha a permissão necessária para cruzar suas terras, enquanto os restantes ficaram como cristãos de aparência e muçulmanos internamente. Estas comunidades ficaram assim até o ano 1540 d.J., até que se casou o Rei de Portugal com a irmã do Rei de Espanha. E fixou-se como condição do casamento o desterro dos muçulmanos. O éxodo de muçulmanos foi numeroso para as zonas circundantes ao norte de Marrocos como Larache e Alcazarquivir, enquanto o resto permaneceu em Portugal como cristãos. E actualmente a maioria dos habitantes de Portugal ao sul de Lisboa são de origem muçulmano e não se diferencian em isso dos andaluces.
Os mouriscos portugueses sofreram em escassas ocasiões o edicto de expulsão de 1609 de Fiilpe II, se assim era, vinha justificado por uma negativa explícita a adoptar a religião cristã; esta medida foi uma tentativa de fazer evidente a separação respeito da Inquisição Espanhola (Boudon 1970, Livermore 1976).
Deste modo o Sur de Portugal pode considerar-se como modelo referencial de um núcleo intacto de população moura (uma advertência sobre este ponto: os dados serológicos para Portugal devem ser usados com extremo cuidado devido à ampla assimilação de pretos africanos ao longo dos últimos 400 anos).
OS MOURISCOS, MOUROS LIVRES OU MOUROS FORROS
Um Mudéjar, Mouro livre o Mouro forro era um muçulmano que ficavar em terras cristãs depois da Reconquista , Um mourisco era um muçulmano que se convertia ao Cristianismo, enquanto que o Mouro era aquele que ainda praticava o Islão.
O termo "mourisco" equivale ao termo cristão-novo (só que este aplicava-se exclusivamente aos judeus que eram forçados a aderir ao Cristianismo).Mouros livres viviam em Portugal, após a Reconquista, e judeus
migraram para Portugal, desde a Espanha, após 1492. Em Portugal,
mouros e judeus foram obrigados a converter-se, originando a
população de cristão-novos. Mouros cativos seguiram sendo introduzidos
em Portugal, sendo superados pelos negro-africanos, em fins do
século 15. Chamava-se de “mourisco” o mouro convertido livre, liberto
e escravizado. A historiografia portuguesa pouco atenção deu às
minorias históricas. O artigo comenta o importante livro de Isabel Bra-
ga, Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista: duas culturas e duas
concepções religiosas em choque, que traça importante perfil da população
mourisca, a partir da documentação da Inquisição. Analisase
também a narrativa histórica da autora como registro das razões
que ensejaram o silêncio historiográfico relativo sobre as comunidades
luso-judaicas, luso-islâmicas e luso-africanas.
Em 711, tropas muçulmanas atravessam desde o norte da África
o estreito de Gibraltar, penetrando na Península Ibérica, de onde
foram expulsos, totalmente, oito séculos mais tarde, quando da conquista
de Granada, em 1492. Apesar de liberação mais precoce, foi significativo
o domínio islâmico sobre importantes regiões do atual Portugal.
O controle do Norte foi transitório. Já em 868, as regiões entre o
Minho e o Douro [Porto e Braga] encontravam-se em mãos cristãs. Por
sua vez, Coimbra libertou-se, bem mais tarde, em 1068, e Lisboa, em
1147. Com a conquista do Algarve, em 1249, chegava ao fim o poder
islâmico na Lusitânia.1
Se o norte português conheceu algumas décadas de suserania
islâmica, o sul vicejou sob aquela autoridade por longo tempo, ensejando
ricos e complexos contatos entre mouros e lusitanos. Essas trocas
prosseguiram além da reconquista e fundação do reino português.
Muitos cristãos que permaneceram em territórios lusitanos ocupados
mantiveram a antiga religião. Os moçárabes – musta’rab = ‘tornado árabe’,
‘arabizado’– terminaram influenciados pela civilização dos novos
senhores. Cristãos foram também escravizados em territórios sob controle
islâmico.
Mourarias e judarias
Uma importante população muçulmana livre permaneceu sobretudo
no sul lusitano reconquistado pelos senhores cristãos. Nas cidades,
ela habitava as mourarias, como os judeus viviam nas judiarias.
Mouros capturados no Mediterrâneo e trazidos de outras regiões da
Península Ibérica trabalhavam igualmente como cativos em Portugal.
O domínio da escravização do muçulmano levou a que, na língua portuguesa,
mouro se tornasse sinônimo de cativo. Em português do Brasil,
“trabalhei como um mouro” é expressão ainda em uso, considera-
da politicamente mais correta do que “trabalhei como um negro”, ainda
que, expressem, ambas, a bem da verdade, absolutamente a mesma
coisa – “trabalhei como um escravo”!
Em 31 de março de 1492 e 1502, Isabel e Fernando de Castela e
de Aragão determinaram a saída dos seus territórios, respectivamente,
dos hispano-judeus e hispano-mouros que não se convertessem ao
cristianismo. Dezenas de milhares de ibéricos expatriados partiram
para o norte da África. Os mouros dissolveram-se sem deixar maiores
traços entre aquelas populações; os judeus deram origem à importante
comunidade judaica sefardita. Segundo o historiador lusitano José
Hermano Saraiva, cem mil judeus teriam procurado refúgio em Portugal,
quando a população do reino não superava um milhão de habitantes.
Grande parte dessa população teria permanecido no Reino,
engrossando “enormemente a população judaica, que já era numerosa”.
2 Um fato que ensejou uma muito grande contribuição judaica na
formação étnica do povo português.
Em dezembro de 1496, na esteira dos reis católicos, dom Manuel
estabeleceu o dia 31 de outubro de 1497 como limite último e
fatídico de partida para todos os judeus e mouros livres e libertos que
não aceitassem se converte ao cristianismo. Em singular tortuosidade
de intenções, ao mesmo tempo, impediu a judeus e mouros de abandonarem
o reino por mar, enquanto não o podiam fazer por terra, já
que para tal deviam embocar o caminho do inferno, ou seja, atravessar
a Espanha, onde seriam irremediavelmente presos e escravizados.3
Sem saída, as conversões de ocasião deram-se às dezenas de milhares.
A partir de então, o uso da língua, da roupa, da alimentação, os hábitos,
os nomes, etc. judaicos e mouros foram reprimidos e tendencialmente
abandonados. Desde então, sob a direção do Estado, empreendeu-
se verdadeira caça e destruição sistemática dos vestígios materiais
da cultura judaica e islâmica lusitanas.
Em Portugal, as sinagogas e as mesquitas eram comumente construídas
expressamente para o culto ou habitações comuns utilizadas
para tais fins, sempre com a permissão do soberano.4 Desta época em
diante, sinagogas, mesquitas, banhos públicos, etc. de raízes luso-judaicas
e luso-muçulmanas foram destruídos. Esse processo determinou
que hoje sejam raros os vestígios culturais, mesmo arqueológicos,
daquelas culturas em Portugal, apesar da importância que ocuparam
no passado.5
Vermelho e amarelo
Com a conversão forçada de judeus e mouros livres e libertos, e
a correspondente aculturação, formal nas primeiras gerações, crescentemente
efetiva nas seguintes, tornou-se cada vez mais difícil o estudo
da população portuguesa de origem judaica e moura e de sua descendência.
6 Em 1536, a
pedido de dom João III, o papado concedeu a introdução
da Inquisição em Portugal. A partir de então, o Santo Ofício
infernizou com singular devoção a vida sobretudo de cristãos novos,
de judeus e de mouros, devido à pouca incidência do protestantismo
em um reino já em acelerada decadência relativa.
Em 1537, o mesmo dom João III restaurou, com modificação,
determinação de 1391 que impunha a obrigatoriedade aos cristão-novos
de judeus e de mouros usarem, respectivamente, uma estrela de
pano vermelho e um crescente de pano amarelo no peito, prática retomada,
meio milênio mais tarde, pelo regime hitlerista.7 A medida fora
exigência do concílio de Latrão de 1215.8
O complexo processo de conversão forçada de multidões de judeus
e de mouros teve conseqüências profundas para a civilização
portuguesa. Entre elas, dividiu a população em multidões de sectários
cristãos-velhos, eventuais denunciantes dos cristão-novos de judeus
e de muçulmanos, que mergulharam na dissimulação permanente de
atos, intenções e sentimentos. Entretanto, a dissolução forçada da população
luso-islâmica no seio da população luso-cristã não pôs fim à
presença explícita de mouros em Portugal. Por um muito longo período,
mouros continuaram sendo capturados no Mediterrâneo e no Atlântico
e levados como cativos para Portugal.
Hegemonia moura
A “Reconquista” da Península Ibérica reativou as práticas escravistas,
que se mantiveram, porém, claramente subordinadas às relações
sociais feudais, significativamente mais avançadas. De tal modo
dominou a escravização do islamita que a palavra “mouro” tornou-se
designação dominante do trabalhador escravizado, tendo sido a palavra
“escravo”, de uso erudito, introduzida tardiamente. A partir de
1444, negro-africanos capturados na costa norte-ocidental da África
começaram a ser desembarcados em Portugal para trabalharem nas
cidades e nos campos ou serem reexportados para a Espanha e, a seguir,
para as Américas. Inicialmente, os “mouros pretos” labutaram
duramente ao lado dos mouros tout court.
Em 1535, exagerando nas cores, o humanista flamengo Nicolau
Clenardo [Clenardus] [1493/4 – 1542] registrava a importância e a
concomitância da escravidão moura e negro-africana: “Os escravos
pululam por toda a parte. Todo [sic] o serviço é feito por negros e
mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou
quase em crer que só em Lisboa há mais escravos e escravas que
portugueses de condição [...].”9 Em meados do século 16, quando o
cativo negro-africano dominava já numericamente a população escravizada
em Portugal, uma quantidade indeterminados de “mouros”
cativos e libertos vivia no Reino, em geral trazidos do norte da África,
do Mediterrâneo, do Atlântico, da Espanha.
Havia forte pressão para que o mouro liberto ou escravizado se
convertesse ao cristianismo. Quando o fazia, na Espanha e em Portugal,
era denominado de “mourisco”. Então, como cristão, avançava
de status jurídico, passava à alçada do Santo Ofício. A inquirição de
cristão-novo suspeito de “judaísmo” ou de “islamismo”, segundo sua
origem, era uma permanente ocupação da Inquisição. Caso o cristão
novo de judeu ou de mouro retornasse a antiga fé, podia e era comumente
condenado à morte, por crime de apostasia.10
A historiografia política e social portuguesa jamais demonstrou
grande interesse pelas minorias do passado lusitano. Apesar da significativa
importância do cativo africano e afro-descendente em Portugal
nos séculos 15, 16 e 17, ela refere-se raramente ao fenômeno. O
mesmo pode-se dizer sobre o tráfico transatlântico lusitano de trabalhadores
escravizados.11 Essa despreocupação estendeu-se também às
interpretações econômicas e analíticas de cunho materialista, paradoxalmente
melhor armadas para destacar a importância dessas formas
e modos de produção na sociedade portuguesa. Em geral, predominou
nessa historiografia a tendência a registrar quase exclusivamente
a oposição dominante entre grandes senhores fundiários, por um lado,
e o “trabalho assalariado” e o pequeno produtor “proprietário dos
meios de produção”, pelo outro. Apenas nos últimos anos esse enorme
hiato historiográfico começa a ser superado.12
História e historiografia
Destaque-se que as duas obras de referência sobre a escravidão
negra em Portugal tenham sido escritas pelo brasileiro José Ramos
Tinhorão –Os negros em Portugal: uma presença silenciosa–, e pelo inglês
A. C. Saunders –História social dos escravos e libertos negros em Portugal:
1441-1555–.13 Se também é grande o desconhecimento sobre a
importante contribuição judaica à civilização lusitana, é ainda mais
profunda a carência de estudos sistemáticos sobre os “mouros” cativos
e libertos, realidade abordada mais comumente em raros livros e
artigos isolados e esparsos. Esses trabalhos produzem avanços do conhecimento
histórico que são retomados, quando o são, com lentidão,
pelas grandes narrativas históricas sobre os períodos em questão, alcançando
imperfeitamente uma população já pouco predisposta à recepção
dessas superações historiográficas.
Com a autoridade adquirida através de sua importante investigação
desenvolvida em Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista:
duas culturas e duas concepções religiosas em choque, Isabel Braga
assinala que os “mouriscos residentes em Portugal e nas praças do
norte da África sob o domínio português parecem ter constituído a
minoria étnico religiosa mais ignorada pela historiografia portuguesa”.
Nesse semideserto historiográfico, o citado estudo de Isabel
Braga destaca-se por várias razões. Inicialmente, por apresentar um
muito abrangente levantamento da bibliografia sobre os mouros em
Portugal e na Península Ibérica. A seguir, por delinear um rico e interessante
perfil da população mourisca no período, baseado sobretudo
em processos da Inquisição no Quinhentos. Por fim, o estudo de Isabel
Braga constitui, ainda que não se proponha a tal, uma valiosa contribuição
à compreensão de algumas das razões e origens da citada
despreocupação historiográfica com as minorias portuguesas do passado.
Pobre e velha
Isabel Braga estuda a população mourisca em uma época em
que a escravidão negro-africana tornava-se dominante em Portugal.
Baseada sobretudo no estudo da documentação referente a 140 homens
e 110 mulheres denunciados –146 forros, 68 cativos e 36 indeterminados–
ao Santo Ofício, procura definir um perfil geral do mourisco
português da época. Para Isabel Braga, a população mourisca em
questão seria “pobre” e “velha”, formada na grande maioria por homens
e mulheres “convertidos da primeira geração” que dominavam
o “árabe falado e, em alguns casos escrito” e, não raro, tinham dificuldades
em falar a língua portuguesa. Essa população concentraria-se
em Lisboa, Setúbal, Évora e no Algarve.15
A autora assinala, sobre essa comunidade: “Muitos homens ‘andavam
à palha’, ‘andavam com bestas’, trabalhavam na ribeira e viviam
por soldada. Almocreves, bailadores de mourisca, cortadores de
carne, cozinheiros, curtidores, estalajadeiros, lavradores, moços de
estrebaria, picadeiros, sapateiros e homens ocupados em curar animais
ou em trabalhar nas obras [...].”16 A
documentação investigada
sugere também o caráter essencialmente formal e sem conseqüências
efetivas da conversão do mouro, cativo, liberto e livre. Batizado após
uma instrução extremamente sumária, o agora mourisco passava a viver
existência material e espiritual praticamente igual à conhecida
quando mouro.
A pesar da possibilidade de conversão à verdadeira fé ter sido
sempre destacada pelo discurso apologético da escravidão de mouros
e negros em Portugal, Isabel Braga é peremptória sobre a profunda
despreocupação com a evangelização e aculturação do muçulmano por
parte do Estado e da Igreja: “[...] em Portugal, nem a Coroa nem a
Igreja tiveram qualquer plano sistemático de assimilação e ou aculturação
dos mouriscos [...].”17 “De um modo geral – lembra a autora –,
verificou-se que os mouriscos estavam mal doutrinados. Ou não se
sabiam benzer, ou não se sabiam persignar, ou ignoravam as orações
na totalidade ou em parte, ou ainda desconheciam os mandamentos e
o significado das festas da Igreja; havendo ainda os que não sabiam
rigorosamente nada.”18 Eram, portanto, no mínimo, maus cristãos.
No relativo aos “mouriscos” cativos, fica clara a relação essencialmente
autoritária e sobretudo econômica que seus escravizadores
mantinham com eles. Como Isabel, outros cativos declararam saber
pouco ou nada do cristianismo, pois “sua senhora não tinha mais cuidado
que de a mandar servir e trabalhar e não de a ensinar”.19 A
documentação
inquisitorial registra também a importância das práticas
culturais “mouras”, em geral diluídas e aculturadas, como forma de
reação cultural dessa população submetida à exploração e à discriminação.
Também devido à discriminação do cristão-velho, era comum
que os mouriscos preferissem casar, viver, comer, falar e divertir-se
entre mouriscos.20
Pernas para que te quero
Era sobretudo difundida a vontade de fugir de Portugal, já que
alcançar a terra do Islã significava em geral poder viver uma existência
qualitativamente superior. Mouriscos cativos, libertos e livres sonharam,
planejaram, contribuíam, apoiavam e foram presos enquanto
fugiam, sobretudo por mar para o norte da África. Alguns deles al-
cançaram seus objetivos, ou quase, como Fernão de Mendonça, preso
em Tânger!21 Maria Fernandes declarou que “andando uma vez prenhe
de uma filha [...] dava com uma pedra na barriga para a mover
porque desejava de ir-se para a terra de mouros [...].” João de Medina
juntou alhos, cebolas, pão, pepinos e vinho e caiu preso, já embarcado,
ao roubar remos. Alguns apoiavam, eventualmente sonhavam e fantasiavam
com a volta ao Islã, mas não arriscavam-se na perigosa partida.
“Leonor de Melo fez uma esmola no valor de 10 reais a favor de
mouriscos que pretendiam fugir para o Islão”.22
Em suprema afronta ao poder estatal, teria havido até mesmo
conversões ao islamismo em terras de Portugal. O elevado nível civilizatório
do Islã ajudava a que o islamismo se transformasse em eventual
opção, em Portugal, para cativos provenientes da Índia. Em 1555,
o cativo Antônio, “índio”, morador de Lisboa, declarou “que desejava
ir para terra de mouro e lá ser mouro, apesar de na sua terra adorar o
sol, a lua e as estrelas”.23 A
documentação registra outros casos semelhantes
a esse. O quadro geral delineado pela autora sugere que, mesmo
para o mouro livre, a conversão ao cristianismo não garantiria grandes
vantagens, apresentando-se mais comumente como causa de permanente
reiteração da diversidade e subordinação, determinada pela
constante vigilância e pelo cristão-velho da ortodoxia do cristão-novo.
Em verdade, a adesão ao cristianismo não se asseverava como caminho
seguro para a integração social, mesmo subordinada.
Nesse sentido, ao processo de aculturação forçada que dissolvia
as diferenças culturais, nem que fosse com o passar das gerações,
o mundo lusitano opunha paralelo esforço de reafirmação das mesmas
diferenças, que ensejaria a reiteração permanente dos privilégios
de uns e da desqualificação de outros, devido à origem. O trabalho de
Isabel Braga expande o conhecimento histórico e ilumina um pouco a
grande escuridão sob a qual mantém-se a importância numérica, o
status, a distribuição geo-profissional, etc. da população mourisca portuguesa
do século XVI.
Em forma não voluntária, o trabalho de Isabel Braga, Mouriscos
e cristãos no Portugal quinhentista: duas culturas e duas concepções religiosas
em choque, contribui igualmente para uma melhor compre-
ensão das razões ideológico-culturais profundas do assinalado silêncio
historiográfico relativo sobre as comunidades luso-judaicas, lusoislâmicas
e luso-africanas. Impacta sobretudo ao leitor não-português
desse valioso estudo o profundo hiato entre o tratamento técnico seguro
das fontes arquivais, registrado nos importantes resultados obtidos,
e a tratamento discursivo e conceitual do objeto histórico expresso
no texto.24
Tal fato nos lembra que o domínio das técnicas de análise documental
não é sempre necessariamente acompanhado por controle do
uso da linguagem, poderosa expressão das concepções que organizam
a enunciação. Em verdade, em forma quase explícita, a linguagem
de Isabel Braga registra comumente os julgamentos de valores
que enquadram sua reflexão.
Em Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista não há movimento
de piedade e de simpatia para essa pobre e sofrida população, multiplamente
judiada pelas engrenagens das rodas da história, quando da
consolidação da sociedade de classes lusitana no século XVI. Em geral,
Isabel Braga reduz anacronicamente a civilização lusitana ao mundo
luso-cristão, praticamente excluindo desta última as demais minorias,
mesmo quando fossem, como vimos, demograficamente substanciais.
É quase como se tudo que não fosse luso-cristão fosse excrescência
à margem da civilização portuguesa. A obra em questão de
Isabel Braga jamais se eleva plenamente à compreensão do mourisco
como elemento contribuinte à formação da civilização e população
lusitana. O mouro torna-se quase um exotismo, e não parte constitutiva
integrante da antiga formação social lusitana, ainda que em permanente
subordinação. Jamais vemos no mouro e no mourisco um
homem e uma mulher que, mesmo tendo desaparecido, com o passar
dos tempos, no tronco comum que originou o português contemporâneo,
jamais deixaram de influenciar profundamente a civilização lusitana.
Vocação historiográfica
A narrativa da autora sobre o mourisco termina diluindo uma
das principais funções da historiografia nesse campo. Ou seja, por um
lado, processar a recuperação e a explicação essenciais dos processos
através dos quais os mouriscos, cristão-novos e negro-africanos foram
incorporados e contribuíram à sociedade portuguesa e, por outro, explicar
os processos pelos quais essa contribuição foi diluída e silenciada
nos múltiplos níveis de apreensão e representação do passado.
É constante em Cristãos e mouriscos em Portugal quinhentistas a
substituição de entes sociais singulares por categorias geográficas e
sociológicas totalizantes –Península Ibérica, sociedade, população, etc.–
. Dilui-se, assim, o papel e a responsabilidade das facções de classes e
classes nos processos históricos.25 O fato que na Península Ibérica tenha-
se conhecido e tomado medidas sobre o “problema mourisco” é
enunciação historiográfica não aconselhável, devido à profunda indeterminação
e ocultação dos protagonistas históricos promovidos pela
enunciação. Porém, o próprio uso do substantivo “problema” já é questionável,
pois sugere que a contradição entre o lusitano e o mourisco
se devesse, sobretudo, a este último.
Porém, definitivamente, não é aceitável propor que a Península
Ibérica, subjetivada, torne-se protagonista de processos históricos. “Durante
o século XVI, a Península Ibérica conheceu o problema mourisco
[sic] e tomou medidas díspares e, em alguns casos, contraditórias,
para lhe dar solução.”26 As “medidas” foram tomadas sobretudo pelo
aparato administrativo da época, em nome dos segmentos sociais que
representava. Por outro lado, no texto, a perseguição étnica, social e
religiosa de judeus e muçulmanos é definida como processo essencialmente
cultural, no qual a luta pela construção da hegemonia das classes
dominadoras não parece desempenhar papel que mereça ser explicitado.
Em linhas gerais, tudo se encerraria no contexto da visão e
proposta do confronto inelutável de “civilizações”.
Tal visão impede a compreensão plena da rejeição cultural-religiosa
associada harmonicamente à atração sócio-produtiva do mouro, que
dominou esse período histórico lusitano. Efetivamente, ao mesmo tem-
po em que o mouro era execrado socialmente em Portugal, como ser
abjeto, praticante de religião execrável, era afanosamente buscado nas
costas mediterrâneas e atlânticas da África para ser utilizado como
cativo, ou seja, agente produtivo. Tratava-se de diferença cultural que
fundava e fortalecia, incessantemente, as diferenças sociais. No mesmo
caso encontrava-se o judeu, expulso do país sem poder deixá-lo, para
ser submetido socialmente em forma mais plena.
A autora estende às classes subalternas luso-cristãs a histórica
ojeriza das elites portuguesas às comunidades mouras/mouriscas, sem
discutir a origem e conteúdo das eventuais fricções entre o povo miúdo
e aquelas comunidades subalternizadas, de origem religiosa e étnica
diversa. E o faz apesar de ter registrado a posição discordante de
nobres e plebeus, devido a interesses contraditórios, sobre o ingresso
de mouriscos em Córdoba, em fins do século 16.27
Em alto e em baixo
A autora registra a oposição popular ao ingresso de mouriscos e
muçulmanos em Portugal: “As populações [sic] pareciam partilhar a
opinião da Coroa no sentido de impedir ou pelo menos limitar a presença
não só de mouriscos como de muçulmanos em Portugal. Pelo
menos assim parece, se tivermos em conta os pedidos formulados nas
Cortes de 1525 e de 1535, nos quais foi solicitada a proibição da entrada
de judeus e mouros.”28
Uma visão que necessitaria discussão mais profunda sobre as
eventuais razões dessa oposição – desvalorização das soldadas; identidade
étnica; pregação do clero, etc. É conhecido o registro do movimento
de simpatia da raia miúda de Lagos, quando do leilão sobretudo
de mouros, registrado por Zurara: “[...] porque além do trabalho que
tinham com os cativos, o campo era todo cheio de gente, assim do
lugar como das aldeias e comarcas de arredor, os quais deixavam em
aquele dia folgar suas mãos, em que estava força do seu ganho, somente
por ver aquela novidade. E com estas cousas que viam, uns-
chorando, outros departindo, faziam tamanho alvoroço, que punham
em turvação os governadores daquela partilha.”29
Em Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista, o judaísmo e o
islamismo são apresentados, como já assinalado, como problemas culturais
imanentes, que exigiam, de per si, solução cabal. Os sucessos
históricos atinentes a essa questão constituiriam meros desdobramento
teleológicos seminaturais de contradições culturais insolúveis. A concepção
monocultural da sociedade de Isabel Braga porta consigo graves
conseqüências. Ainda mais que, ao justificar os processos de homogeneização
de populações nacionais do passado, justifica as atuais
proposta de manutenção autoritária de monoculturalismo, cada vez
mais fortes nessas épocas de neoliberalismo e imperialismo triunfantes.
A autora é peremptória. Não havia alternativa histórica multicultural.
“Vivendo em confronto ideológico permanente, devido ao
choque entre duas culturas e duas concepções religiosas diferentes,
os mouriscos estiveram condenados a uma assimilação crescente a
partir da segunda geração.”30 Através do texto, explicita-se vontade
recorrente de culpabilização e responsabilização dos subalternizados,
pela própria subalternização. Para a autora, o mourisco não quer se
converter, na alma. Em verdade, sua conversão profunda mostravase,
segundo ela, impossível. Isabel Braga não discute igualmente qual
era a conversão possível, no contexto do universo que descreve.
Com a defesa da inevitabilidade da expulsão dos judeus da Espanha
pelos “Reis Católicos”, a autora responsabiliza os pacientes do
processo de hegemonização sócio-cultural e justifica a empresa em
nome de razões de Estado. Propõe, ao referir-se ao martírio multitudinário
a que foram submetidas as populações arábico-hispânicas na
Espanha feudal-cristã: “Tal medida antecipou a de 31 de Março de
1492, data em que Fernando e Isabel [...] ordenaram a expulsão de
todos os judeus [...], conscientes que eles nunca se converteriam com
sinceridade [...].”
Convertidos na alma
Os “Reis Católicos” teriam portanto reagido à consciência da
infidelidade daquelas comunidades e às injunções políticas da formação
do Estado moderno, já que “empenhados em estruturar uma
nova monarquia, baseada no princípio, corrente ao tempo [...] de que
rei e reino deveriam ter a mesma religião, pois assim se evitariam problemas
de obediência dos súditos e se consolidaria o poder real”. Assim
propondo, Isabel Braga sugere que os “judeus” ibéricos teriam
sido “vítimas da maturação do poder político” e não das elites feudais
cristãs, vitoriosas também na luta contra a ordem burguesa nascente
na Europa Central e do Norte.31 Ao descrever a crise econômica do
século XIV, e o “ódio anti-judaico, que foi acompanhado da falência
de muitos hebreus ligados ao mundo do negócio”, assinala que, já
naqueles momentos, “os poucos conversos já existentes começaram a
causar problemas [...]”.32
Para Isabel Braga, os mouriscos não estariam interessados em
tornar-se cristãos na alma: “[...] também parece ter sido verdade que
muitos mouriscos não só não se interessavam por tais assuntos, como
nunca tinham deixado a sua fé inicial e só cumpriam determinados
rituais para evitarem levantar suspeitas.” “A má vontade [sic] em
aprender os preceitos católicos, por parte dos mouriscos, também se
fez sentir.”33 Mais grave ainda. Os mouriscos ofendiam os sentimentos
religiosos e culturais da maioria cristã-velha que, de vitimadora,
torna-se vítima. “Os valores e interesses da sociedade [sic] foram também
lesados pelos mouriscos, os quais praticaram injúrias, um casamento
a contra gosto da mãe da nubente, uma situação de adultério, a
existência de barregãs e uma tentativa de violação.”34
Segundo a autora, além “das críticas, os mouriscos chegaram a
praticar actos de desrespeito pela religião da maioria cristã-velha.
Antónia Guerra declarou que, um dia, indo ao mato com outra mourisca
para recolher lenha, destruiu cinco cruzes que encontrou no caminho
mantendo-as no feixe de lenha por desprezo da cruz.”35 Isabel Braga
resgata a ação da Inquisição, ao tomar, como bom motivo de seus
atos, as próprias razões que a instituição apresentava. “A Inquisição
averiguou igualmente o comportamento religioso destes critãos-novos
e, em muitos casos, provou que os mouriscos, no íntimo, seguiam
a religião islâmica, fingindo ser cristãos, ou seja, praticando [...] a dissimulação
defensiva.”36
Assim sendo, o Santo Ofício teria, muitas vezes, punido delitos
realmente ocorridos, interpretando apenas o sentimento da comunidade
cristã majoritária, gravemente ofendida em suas sensibilidades
religiosas e culturais: “Efetivamente, para a sociedade cristã a existência
de minorias que recusassem a conversão era um escândalo e um
factor de desestabilização.”37
Em um momento da análise, a narrativa assume tamanha tensão
ideológica que, ao recuperar conceito discriminatório fundido pelas
classes dominantes da época para referir-se aos mouriscos, a autora
sente-se na necessidade de neutralizar sua recuperação categorialideológica
com explicação justificativa. É o caso do tratamento do português
como branco, em oposição a ao mourisco que, devido a essa
denominação, seria logicamente não-branco, apesar da, e muitos casos,
enorme proximidade-identidade racial entre as duas comunidades.
Em branco e preto
A autora divide arbitrariamente o mundo que analisa em brancos
e negros, ao assumir a linguagem apologética parida pela sociedade
escravista da época. “Muitos mais raros eram os casamentos, mistos
isto é com brancos [sic], como os próprios mouriscos referiam os
cristãos-velhos.”38 Um processo que é extremado nas conclusões, ao
propor que eram os próprios mouriscos e mouros a denominarem os
portugueses como “brancos” e, portanto, a auto-denominar-se de negros,
categoria, destaque-se, com conteúdo depreciativo na própria
África islâmica! “Enquanto pessoas recém chegadas a Portugal [os
mouriscos] eram pouco numerosas, pobres, concentradas especialmente
em Lisboa, Setúbal, Évora e no Algarve e vistas pelos cristãos-velhos,
a quem denominavam brancos, como ‘infiéis’.”39
Em Portugal, no século 15, devido ao caráter normando –real
ou pretenso– de parte da aristocracia feudal que participou e se locu-
pletou da Reconquista, designava-se genericamente como negro todos
os tipos de pele morena”, nacionais e estrangeiros.40 Assim sendo, originalmente,
em oposição à aristocracia nórdica, o mouro foi chamado de
negro, como era também chamada boa parte da população portuguesa
autóctone.
Na Ibéria, como vimos, devido à dominância da escravização
do “mouro”, o termo passou a descrever o homem escravizado, ensejando
o vocábulo “mourejar” ou “moirejar”. Devido a essa ressemantização,
o muçulmano livre, alforriado e cativo era designado, respectivamente,
como “mouro livre”, “mouro forro” e “mouro cativo”.
“Mouro”, isolado, denominava o indivíduo escravizado. Os primeiros
negro-africanos introduzidos em Portugal foram chamados de
“mouros negros”.
As multidões de negro-africanos feitorizadas em Portugal foram
denominadas a seguir de “homens pretos” e “mulheres pretas” e,
a seguir, de “pretos” e “pretas”, devido à cor “negra” mais intensa,
em relação ao negro mouro. Como o “preto” e a “preta” eram maciçamente
cativos, o designativo passou a descrever o afro-descendente
escravizado. O africano ou afro-descendente não sujeito à escravidão
era chamado de “preto livre” ou “preto forro”.41 Tratou-se, sempre,
de formas designativas prenhes de conteúdos sociais depreciativos,
paridas pelas classes dominantes escravistas e inculcadas às classes
subalternizadas.42
Em diversos momentos, apesar de sua indiscutível excelência
técnica, Mouriscos e cristãos no Portugal quinhentista: duas culturas e
duas concepções religiosas em choque apresenta-se como uma espécie
de narrativa cristã-velha preocupada em provar a infidelidade lusocristã
do mourisco e, portanto, às boas razões de ação repressiva da
Coroa, da Inquisição e dos cristãos-velhos. Uma narrativa que registra,
portanto, a coesão dos sentimentos autoritários e xenófobos da
ideologia nacional-conservadora lusitana, gerada pelo senhorialismo
e racismo do Estado monárquico e colonial, e pelo autoritarismo e colonialismo
do Estado salazarista, mantém-se ainda forte, apesar dos
ventos que agitaram Portugal, quando do 25 de Abril do já distante
1974.
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